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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Os filhos são dons

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Depois de ter refletido sobre as figuras da mãe e do pai, nestas catequeses sobre família gostaria de falar do filho, ou melhor, dos filhos. Inspiro-me em uma bela imagem de Isaías. Escreve o profeta: “Levanta os olhos e olha à tua volta: todos se reúnem para vir a ti; teus filhos chegam de longe, e tuas filhas são transportadas à garupa. Essa visão tornar-te-á radiante; teu coração palpitará e se dilatará” (60,4-5a). É uma imagem esplêndida, uma imagem da felicidade que se realiza na reunificação entre pais e filhos, que caminham juntos rumo a um futuro de liberdade e de paz, depois de um longo tempo de privações e de separação, quando o povo hebreu se encontrava distante da pátria.
De fato, há uma estreita ligação entre a esperança de um povo e a harmonia entre as gerações. Devemos pensar bem nisto. Há uma ligação estreita entre a esperança de um povo e a harmonia entre as gerações. A alegria dos filhos faz palpitar os corações dos pais e reabre o futuro. Os filhos são a alegria da família e da sociedade. Não são um problema de biologia reprodutiva, nem um dos tantos modos de se realizar. E tão pouco uma posse dos pais… Não. Os filhos são um dom, são um presente: entendem? Os filhos são um dom. Cada um é único e irrepetível; e ao mesmo tempo inconfundivelmente ligado às suas raízes. Ser filho e filha, segundo o desígnio de Deus, significa levar em si a memória e a esperança de um amor que se realizou justamente iluminando a vida de um outro ser humano, original e novo. E para os pais cada filho é si mesmo, é diferente, é diverso. Permitam-me uma recordação de família. Eu me lembro da minha mãe, dizia a nós – éramos cinco -: “Mas eu tenho cinco filhos”. Quando lhe perguntavam: “Qual é o teu preferido”, ela respondia: “Eu tenho cinco filhos, como cinco dedos [mostra os dedos da mão] Se me batem neste, me faz mal; se me batem neste outro, me faz mal. Me faz mal em todos os cinco. Todos são filhos meus, mas todos diferentes como os dedos de uma mão”. E assim é a família! Os filhos são diferentes, mas todos filhos.
Um filho é amado porque é filho: não porque é bonito, ou porque é assim ou assim; não, porque é filho! Não porque pensa como eu, ou encarna os meus desejos. Um filho é um filho: uma vida gerada por nós mas destinada a ele, ao seu bem, ao bem da família, da sociedade, de toda a humanidade.
Daqui vem também a profundidade da experiência humana de ser filho e filha, que nos permite descobrir a dimensão mais gratuita do amor, que nunca termina de nos surpreender. É a beleza de ser amado primeiro: os filhos são amados antes de chegarem. Quantas vezes as mães na praça me mostram a barriga e me pedem a benção… estas crianças são amadas antes de vir ao mundo. E esta é gratuidade, isto é amor; são amados antes do nascimento, como o amor de Deus que nos ama sempre primeiro. São amados antes de terem feito qualquer coisa para merecê-lo, antes de saber falar ou pensar, até mesmo antes de vir ao mundo! Ser filhos é a condição fundamental para conhecer o amor de Deus, que é a fonte última deste autêntico milagre. Na alma de cada filho, por quanto vulneráveis, Deus coloca o selo deste amor, que está na base da sua dignidade pessoal, uma dignidade que nada e ninguém poderá destruir.
Hoje parece mais difícil para os filhos imaginar o seu futuro. Os pais – mencionei em catequeses anteriores – deram talvez um passo para trás e os filhos se tornaram mais incertos em dar os seus passos adiante. Podemos aprender a boa relação entre as gerações com o nosso Pai Celeste, que deixa cada um de nós livre mas não nos deixa sozinhos nunca. E se erramos, Ele continua a nos seguir com paciência sem diminuir o seu amor por nós. O Pai celeste não dá passos para trás no seu amor por nós, nunca! Vai sempre adiante e, se não pode seguir adiante nos espera, mas não vai nunca para trás; quer que os seus filhos sejam corajosos e deem seus passos adiante.
Os filhos, por sua parte, não devem ter medo do empenho de construir um mundo novo: é justo para eles desejar que seja melhor que aquele que receberam! Mas isto deve ser feito sem arrogância, sem presunção. Dos filhos é preciso saber reconhecer o valor e aos pais se deve sempre dar honra.
O quarto mandamento pede aos filhos – e todos o somos! – para honrar o pai e a mãe (cfr Es 20, 12). Este mandamento vem logo depois daqueles que dizem respeito ao próprio Deus. De fato, contém algo de sagrado, algo de divino, algo que está na raiz de todo outro tipo de respeito entre os homens. E na formulação bíblica deste quarto mandamento, acrescenta-se: “para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá”. A ligação virtuosa entre as gerações é garantia de futuro, e é garantia de uma história realmente humana. Uma sociedade de filhos que não honram os pais é uma sociedade sem honra; quando não se honram os pais se perde a própria honra! É uma sociedade destinada a se encher de jovens áridos e ávidos. Porém, também uma sociedade avarenta de gerações, que não ama circundar-se de filhos, que os considera sobretudo uma preocupação, um peso, um risco, é uma sociedade deprimida. Pensemos em tantas sociedades que conhecemos aqui na Europa: são sociedades deprimidas, porque não querem os filhos, não têm os filhos, o nível de nascimento não chega a um por cento. Por que? Cada um de nós pense e responda. Se uma família generosa de filhos é olhada como se fosse um peso, há algo errado! A geração dos filhos deve ser responsável, como ensina também a Encíclica Humanae vitae, do beato Papa Paulo VI, mas ter mais filhos não pode se tornar automaticamente uma escolha irresponsável. Não ter filhos é uma escolha egoísta. A vida rejuvenesce e conquista energias multiplicando-se: se enriquece, não se empobrece! Os filhos aprendem a cuidarem da própria família, amadurecem na partilha dos seus sacrifícios, crescem na apreciação dos seus dons. A agradável experiência da fraternidade anima o respeito e o cuidado dos pais, aos quais é preciso o nosso reconhecimento. Tantos de vocês aqui presentes têm filhos e todos somos filhos. Façamos uma coisa, um minuto de silêncio. Cada um de nós pense no seu coração nos próprios filhos – se tem – pense em silêncio. E todos nós pensemos nos nossos pais e agradeçamos a Deus pelo dom da vida. Em silêncio, aqueles que têm filhos pensem neles e todos nós pensemos nos nossos pais (silêncio). O Senhor abençoe os nossos pais e abençoe os vossos filhos.
Jesus, o Filho eterno, feito filho no tempo, ajude-nos a encontrar o caminho de uma nova irradiação desta experiência humana tão simples e tão grande que é ser filho. No multiplicar-se das gerações há um mistério de enriquecimento da vida de todos, que vem do próprio Deus. Devemos redescobri-lo, desafiando o preconceito; e vivê-lo, na fé, em perfeita alegria. E vos digo: quão belo é quando passo em meio a vocês e vejo os pais e as mães que levantam seus filhos para serem abençoados; isto é um gesto quase divino. Obrigado porque o fazem!
Papa Francisco

A ausência paterna

CATEQUESE
Sala Paulo VI – Vaticano
Quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Retomamos o caminho das catequeses sobre família. Hoje nos deixamos guiar pela palavra “pai”. Uma palavra mais que qualquer outra querida a nós cristãos, porque é o nome com o qual Jesus nos ensinou a chamar Deus: pai. Hoje o sentido deste nome recebeu uma nova profundidade justamente a partir do modo em que Jesus o usava para se dirigir a Deus e manifestar a sua especial relação com Ele. O mistério abençoado da intimidade de Deus, Pai, Filho e Espírito, revelado por Jesus, é o coração da nossa fé cristã.
“Pai” é uma palavra conhecida por todos, uma palavra universal. Essa indica uma relação fundamental cuja realidade é tão antiga quanto a história do homem. Hoje, todavia, chegou-se a afirmar que a nossa seria uma “sociedade sem pais”. Em outros termos, em particular na cultura ocidental, a figura do pai seria simbolicamente ausente, dissipada, removida. Em um primeiro momento, a coisa foi percebida como uma libertação: libertação do pai-patrão, do pai como representante da lei que se impõe de fora, do pai como censor da felicidade dos filhos e obstáculo da emancipação e da autonomia dos jovens. Às vezes, em algumas casas, reinava no passado o autoritarismo, em certos casos até mesmo a opressão: pais que tratavam os filhos como servos, não respeitando as exigências pessoais do crescimento deles; pais que não os ajudavam a empreender o seu caminho com liberdade – mas não é fácil educar um filho em liberdade – ; pais que não os ajudavam a assumir as próprias responsabilidades para construir o seu futuro e o da sociedade.
Isto, certamente, é uma atitude não boa; porém, como acontece muitas vezes, se passa de um extremo a outro. O problema dos nossos dias não parece mais ser tanto a presença invasiva dos pais quanto a sua ausência, a sua falta de ação. Os pais estão, por vezes, tão concentrados em si mesmos e no próprio trabalho e às vezes nas próprias realizações individuais a ponto de esquecer a família. E deixam sozinhos os pequenos e os jovens. Já como bispo de Buenos Aires senti o sentido de orfandade que vivem os jovens; muitas vezes eu perguntava aos pais se brincavam com os seus filhos, se tinham a coragem e o amor de perder tempo com os filhos. E a resposta era ruim, na maioria dos casos: “Mas, não posso, porque tenho tanto trabalho…” E o pai era ausente daquele filho que crescia, não brincava com ele, não, não perdia tempo com ele.
Ora, neste caminho comum de reflexão sobre família, gostaria de dizer a todas as comunidades cristãs que devemos ser mais atentos: a ausência da figura paterna na vida dos pequenos e dos jovens produz lacunas e feridas que podem ser também muito graves. E, de fato, os desvios de crianças e de adolescentes podem, em boa parte, ser atribuídos a esta falta, à carência de exemplos e de guias autoritárias em suas vidas de cada dia, à carência de proximidade, à carência de amor por parte dos pais. O sentido de orfandade que tantos jovens vivem é mais profundo que aquilo que pensamos.
São órfãos na família, porque os pais muitas vezes são ausentes, mesmo fisicamente, da casa, mas sobretudo porque, quando estão ali, não se comportam como pais, não dialogam com os seus filhos, não cumprem o seu papel educativo, não dão aos filhos, com o seu exemplo acompanhado de palavras, aqueles princípios, aqueles valores, aquelas regras de vida de que precisam como precisam do pão. A qualidade educativa da presença paterna é tanto mais necessária quanto mais o pai é obrigado pelo trabalho a estar distante de casa. Às vezes parece que os pais não sabem bem qual posto ocupar na família e como educar os filhos. E, então, na dúvida, se abstém, se retiram e negligenciam suas responsabilidades, talvez refugiando-se em uma improvável relação “em pé de igualdade” com os filhos. É verdade que você deve ser “companheiro” do teu filho, mas sem esquecer que você é o pai! Se você se comporta somente como um companheiro em pé de igualdade com o filho, isto não fará bem ao menino.
E vemos este problema também na comunidade civil. A comunidade civil, com as suas instituições, tem uma certa responsabilidade – podemos dizer paterna – com os jovens, uma responsabilidade que às vezes negligencia ou exerce mal. Também essa muitas vezes os deixa órfãos e não propõe a eles uma verdade de perspectiva. Os jovens permanecem, assim, órfãos de caminho seguros a percorrer, órfãos de mestres em quem confiar, órfãos de ideais que aquecem o coração, órfãos de valores e de esperanças que os apoiam cotidianamente. São preenchidos, talvez, por ídolos, mas se rouba o coração deles; são impelidos a sonhar com diversão e prazer, mas não se dá a eles o trabalho; são iludidos com o deus dinheiro, e se nega a eles as verdadeiras riquezas.
E então fará bem a todos, aos pais e aos filhos, escutar novamente a promessa que Jesus fez aos seus discípulos: “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18). É Ele, de fato, o Caminho a percorrer, o Mestre a escutar, a Esperança de que o mundo pode mudar, que o amor vence o ódio, que pode haver um futuro de fraternidade e de paz para todos. Alguém de vocês poderá me dizer: “Mas, padre, hoje o senhor foi muito negativo. Falou somente da ausência dos pais, o que acontece quando os pais não são próximos aos filhos…” É verdade, quis destacar isso, porque na quarta-feira que vem prosseguirei esta catequese colocando o foco na beleza da paternidade. Por isso escolhi começar pelo escuro para chegar à luz. Que o Senhor nos ajude a entender bem estas coisas. Obrigado.
Papa Francisco

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O amor pela via da paternidade



“O homem não vive sem amor. 
Ele permanece para si mesmo um ser incompreensível,
sua vida é destituída de sentido se não lhe revelar o amor,
se não se encontrar com o amor,
 se não o experimentar apropriando-se dele, 
se não participar dele vivamente”¹


     O belo parágrafo escrito pelo Papa João Paulo II aborda a verdade que constitui a pessoa: o ser humano é chamado à vida para amar e ser amado. Muito mais do que um sentimento agradável, o amor traz em si a vontade e a ação concreta geradora do bem ao outro. Amar é fazer o bem ao outro, pelo outro, nos ensina São Tomas de Aquino. Nessa perspectiva, o amor tem suas diferentes características, que nos confirmam e nos fortalecem enquanto pessoas. No seio de uma família, como filhos, é possível encontrarmos o amor, através das suas formas distintas, porém complementares: o amor da mãe, o amor do pai, do irmão e dos avós, por exemplo. No mosaico das relações que travamos, o amor vai se construindo em nós. Cada qual com suas características, desafios e peculiaridades, contribuindo para a formação de nossa personalidade, capacidade psico-cognitiva, desenvolvimento de nossas competências e habilidades, formas de socialização, bem como, os princípios e virtudes que fazem parte do que somos. 

     Daremos agora, maior atenção para a paternidade, como via do amor que constitui um filho. Via distinta, com seus contornos próprios, o amor do pai é tão importante e necessário quanto o amor da mãe. Na pedagogia do ser, a maternidade e a paternidade devem buscar o equilíbrio e o vínculo saudável em favor da educação do filho. O filho não é da mãe ou do pai, é dos dois. Faz muito bem o homem que abraça sua paternidade de modo participativo e presente. Também faz muito bem a mãe que dá espaço para o pai ser pai efetivamente. 

     Pensemos de forma ideal, já que os ideais nos remetem para frente. Ao nascer uma criança, nasce um ser totalmente dependente de cuidados e necessidades. No vínculo inicial mãe-bebê, o pai faz o entorno da proteção e logística. Na sequência, o pai se relaciona com o filho formando um vínculo próprio, de sustento e confiabilidade.  É na família que a criança necessita encontrar o seu ninho, seu abrigo e porto seguro. Nesse ambiente, o pai é chamado a ser suporte, estabilidade, base de sustentação na vida do filho. Na ação do pai, torna-se cada vez mais urgente a criança encontrar o limite, a referência, a correção, a segurança: “Até aqui tu podes, ali não.” Se a mãe tem o colo confortador que faz o filho voltar-se para si mesmo, o pai tem a mão segura que o ergue e o faz ir para além de si. Próprio do olhar masculino, a objetividade, a visão direcionada, a força interior, a determinação clara das regras norteadoras, possuem valor fundamental para a condução da autonomia do filho. Bem como, o brincar com o pai, amplia no filho o desejo da aventura, da construção, da criatividade, das “engenharias inventivas”, do arriscar-se, do tentar de novo e de novo até tornar possível o que foi arquitetado. Brincar com o pai é diferente de brincar com a mãe. É bom que ambos brinquem juntos com seus filhos, mas também é bastante saudável que ora o filho brinque com a mãe, ora brinque com o pai.  Não para afastar, mas para a internalização e comparação do que vem do pai, daquilo que vem da mãe; como age o masculino, como age o feminino. 
     
     Anos atrás, em um grupo de crianças entre 9 e 10 anos, questionei o que mais gostavam em seu pai. Rapidamente uma criança respondeu: “gosto do meu pai inteiro, com tudo que ele é”. Outra ainda disse: “meu pai é o cara das certezas, ele sabe tudo”. E outra: “meu pai tem o abraço que mais me protege”. Ainda outra: “eu queria ter tido um pai, mas eu não o conheci.” Interessante. Por mais que a família seja atingida sobremaneira em nossa atualidade, as crianças naturalmente buscam no amor do pai, o amor do sustento e da edificação do ser. Há pais incertos do que fazer, de como agir para educar o filho.  Se por um lado, a insegurança faz parte, visto que cada filho os desafia de uma forma própria, por outro lado, pode ser consequência da angústia de viver em uma época onde a paternidade é bombardeada em sua autoconfiança e até mesmo em sua existência.  A masculinidade tem sido desenhada por algumas instâncias e meios sociais, como as garatujas dos desenhos infantis: sem definições, sem perspectiva, sem referências, sem característica. Uma lástima com graves consequências pessoais e sociais. Tira-se o pai da sociedade, perde-se o amparo seguro, o amor que rege e norteia em completude e equilíbrio ao amor da mãe. A falta da paternidade faz redobrar o esforço materno e vice-versa. Quando um não assume seu papel, torna exausto o outro. 

     Os pais cristãos precisam alertar-se em não cair nas armadilhas da atualidade, buscando assumir-se e educar-se conforme as virtudes e valores evangélicos.  A grande referência de paternidade humana está no pai que adotou Jesus por filho: José. Primeiramente, José abriu espaço em sua vida para receber um filho. Foi amparo e segurança para a mãe de seu filho. Diante da angústia do “não há lugar”², manteve-se perseverante. Como carpinteiro fez o melhor possível para dignificar e tornar em abrigo a estrebaria que recebeu Jesus. Apesar do talento, não pode construir o berço, nem o baú de pertences de seu filho. Ainda assim, José não parou na frustração. Protetor de sua família guardou com segurança a vida de seu filho e de sua esposa diante de adversidades que iam muito além de suas capacidades de compreensão. Agiu com o sentido de pertença - “são meus”- tomando para si a responsabilidade da garantia da vida e do companheirismo, cooperando com a vocação de sua esposa e filho.  

     O Papa Francisco se referiu a São José como o “guardião”. Considera o Papa a “ presença constante e fidelidade total(...) acompanha com solicitude e amor cada momento(...) mostra-se sensível com as pessoas que lhe estão confiadas, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento aquilo que o rodeia e toma as decisões mais sensatas (...) responde a vocação de Deus: com disponibilidade e prontidão (...)um homem forte, corajoso, trabalhador, mas, no seu íntimo, sobressai uma grande ternura, que não é virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor(...). Fica o conselho a todos nós: “Guardemos com amor aquilo que Deus nos deu!”³ 

     Que os pais guardem seus filhos e a mãe de seus filhos. Que as mães guardem o valor e a dignidade do pai de seus filhos. Que os filhos guardem com atenção e respeito seus pais. Eis a dinâmica familiar que somos desafiados a construir e manter.

     Que por intercessão de São José, cada pai carregue a graça de revelar o amor de seu jeito único, indispensável e perseverante, imprimindo em seu filho, o sentido de ser querido, desejado, acompanhado, estimulado em seu desenvolvimento integral. Não há “manuais de paternidade”, mas no amor responsável certamente se constrói uma excelente via condutora. 
Fraterno abraço,
Patrícia Espíndola de Lima Teixeira 
* Artigo publicado no site http://www.alianca.fm.br/formacao no mês de agosto/2014
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1. Carta Encíclica Redemptor Hominis, n.10
2. Cf. Lc 2,7.
3. Trecho da homilia do Papa Francisco na Solenidade de São José em 19/03/2013. Missa Inaugural de seu Pontificado.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O ato de Educar como prolongamento do ato de gerar




“Gerando no amor e por amor uma nova pessoa, que traz em si
 a vocação para o crescimento e para o desenvolvimento, 
os pais assumem por isso mesmo o dever de ajudar eficazmente 
a viver uma vida plenamente humana”¹

Entre mudanças físicas e a reorganização do ambiente, ao gerar um novo ser, os pais sentem o coração dilatar-se por toda a vida. Pelo menos, assim espera-se que o bebê seja acolhido, querido, amado e investido. Entre o fato real e o sonho, vive-se o amor da esperança, dos desejos e propósitos e assim, pai e mãe constroem os primeiros esboços do ato prolongado ao gerar: o educar. Essa construção ocorre de forma pessoal e também como casal. De filho passa-se a ser pai. Ela que tanto gritou pela mãe, agora é a mãe que dará a resposta. Eles que tiveram seus responsáveis, agora são os responsáveis. 

 A paternidade e a maternidade assumem seus contornos de forma processual na medida em que a vocação é assumida. Ao nascer um filho, nasce uma mãe e nasce um pai.  Educar se dá nessa continuidade, nesse querer ser e estar para o outro.

O termo “educação” vem do latim e-ducere: “conduzir para o exterior o que está no interior, fazer crescer, ir além dos limites próprios”. Encontramos também a derivação educare: “ação de formar, instruir, guiar”. Nessa perspectiva, a educação pode ser vista como um processo constante e constituído de ações inter-relacionadas que regulam, equilibram e estimulam o ser humano em busca de um fim, de um sentido que o norteará.

A educação tem sido uma tarefa cada vez mais urgente e desafiadora. Em uma época com tantas inovações, transições e instabilidades de toda a ordem, precisamos buscar as referências, os princípios e valores que nos regem, para assim termos presente quem somos e quem somos chamados a ser para nossos filhos.

Então, qual a melhor forma de educar? Como educar alguém tão precioso para nós? Mantendo sempre sob o nosso controle? Deixando-o livre para fazer todas as suas escolhas? Qual o melhor caminho? 
A resposta está sempre no equilíbrio, na ordenação entre aquilo que compete aos pais e as necessidades e estímulos para o momento em que o filho se encontra.

Por mais que haja técnicas, sugestões e informações relevantes, o olhar mais primordial é a identificação de um filho como pessoa única, com vocação para o desenvolvimento e do qual somos os primeiros responsáveis. Nossa responsabilidade inclui formarmos, instruirmos e guiarmos cada filho para irem além, trazendo para o ambiente as suas contribuições, posicionamentos e características próprias, fazendo o diálogo entre o que recebem desse meio e o que internalizam: “Tu faz a diferença no mundo e no nosso mundo” – aqui o ser humano assume o seu valor de ser amado e querido de forma pessoal.

Como pessoa, o filho traz em sua interioridade o germe potencial para o desenvolvimento de si e das relações com o meio em que vive. Os pais são convocados a contribuir ativamente por meio educativo para que os filhos desenvolvam suas potências nas dimensões: física, emocional, intelectual, social e espiritual. Essa integralidade do ser equilibra e estrutura com segurança e suporte a vida humana.
           
Diante disso, torna-se propício o questionamento pessoal e como casal:

Que pessoa estamos ajudando a formar?
Para que consciência de mundo?
Com que valores e propósitos?
O que realmente tem educado?
O que o deseduca?
As correções que fazemos são realmente educativas?
Há coerência entre nossa palavra e nossa ação?
Nossa postura e conduta revela o valor que nosso filho tem para nós?

 Não há ato paterno ou materno que passe indiferente na vida de um filho.  Por isso a importância de termos presente o valor de uma educação que promove, perdoa, dignifica, limita, corrige e dá nova possibilidade. Não o deixa no abandono ou incerteza existencial. Muito de nossa ação conduzirá sua infância e adolescência, trazendo contribuições para a constituição de sua personalidade e consciência. Porém nem tudo será absorvido, sobretudo se acreditarmos numa educação pautada somente nas palavras. Ainda que as palavras tenham relevância, os exemplos, escolhas e condutas são bem mais educativos. Crianças se incomodam com a incoerência entre o discurso e a prática dos pais, adolescentes não a toleram. E assim, nos desafiam a buscarmos também o nosso equilíbrio e estabilidade, enquanto adultos e enquanto pais. 

“A boa educação é aquela que se adianta ao desenvolvimento”². Que grande bem faz esse cuidado repleto de práticas de amor, bem querer e respeito. O maior investimento materno e paterno é o olhar para o filho e vê-lo como alguém com competência, digno, capaz de avançar na potencialidade de ser e de se relacionar. Assumir-se como influência positiva na sua vontade de viver, de ir além, de se superar e de pensar por si mesmo, valorizando o pensamento do outro. Que alegria se cada filho identificar o valor da contribuição que pode dar a vida comunitária ao olhar para a vivência presente no lar que não se furtou de educá-lo. 
Fraterno abraço,

Patrícia Espíndola de Lima Teixeira - Psicopedagoga, esposa e mãe. Membro do Movimento das Equipes de Nossa Senhora, da Missão Tabor e do Programa Água Viva.
* Artigo publicado no site http://www.alianca.fm.br/formacao no mês de junho/2014.

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(1) Exortação Apostólica Familiaris Consortio, 22.11.1981, n.36.
(2) Citação de Lev Vygotsky, psicólogo bielo-russo, que enfatiza a aprendizagem humana como uma relação dialética entre o sujeito e o ambiente a seu redor – ou seja, o homem modifica o ambiente e o ambiente modifica o homem.


“Eis os frutos de nossa vocação!”


A frase acima foi dita por um casal com seus 50 anos de matrimônio, diante do Papa Francisco no Encontro do Papa com as Famílias, por ocasião do Ano da Fé, em outubro do ano passado. Diante de 80 mil pessoas, aquele casal apresentava seus filhos com seus esposos, seus netos e bisnetos como “frutos de sua vocação”. Era uma bela e numerosa família.

Observando aquela cena pensei no quanto a graça de Deus nos alcança profunda e diretamente através dos nossos filhos.  Não é só ter o filho como uma benção, mas é querer viver esta bênção, apropriando-se de um sinal claro e visível de nossa vocação esponsal. Um testemunho muito significativo que por sua simplicidade e consciência do ser família cristã, confronta a realidade com que grande parte das famílias atuais tem se apresentado... poucos filhos ou nenhum, sem a busca da vivência do Sacramento do Matrimônio, pouco investimento na relação de amor e cumplicidade entre os esposos, para citar o mínimo.

Em alguns lares, há filhos sendo vistos como empecilhos para o desenvolvimento profissional, acadêmico (e até matrimonial!), um impedimento para os confortos e realizações pessoais ou um investimento oneroso demais, gerador de alto custo. Ouve-se ainda seguidamente a frase: “Não tenho coragem de colocar um filho no mundo de hoje em dia, não do jeito que está!” ou ainda: “queremos ficar muitos anos sem filhos para aproveitarmos bem nosso casamento. Somente quando estivermos maduros o suficiente teremos filhos”. É preciso ter cuidado com essas visões limitadoras da ação divina. Nós, cristãos, não podemos cair na armadilha desses discursos prontos. Escolhas feitas somente na visão humana, sem a busca do amparo divino, tendem a ser frágeis, parciais e desfocadas.

Pais e mães são convidados à reflexão do amor-doação de Deus Uno e Trino, como cooperadores da obra da criação: uma só natureza em pessoas que se complementam e transcendem gerando um novo ser.  Que belo pensar em nossa família assim: o amor que transborda em nós torna-se vida na pessoa de nosso filho. O amor que corre, que brinca, que sorri. É a graça de Deus personificada e entregue de forma confiante a nós para que o eduquemos para a felicidade plena. Não para o acúmulo de alegrias pouco duráveis. Inserido em um meio que o deseja, o acolhe e contribui para seu desenvolvimento integral, vemos ocorrer a concretude do amor-doação. Educar um filho é fácil? Não. É difícil? Depende. Depende de como o enxergamos e de como nos enxergamos. Sempre haverá desafios. Cada etapa do desenvolvimento infanto-juvenil traz suas vitórias e seus pontos de maior atenção. Mesmo pais de adultos relatam o olhar contínuo de cuidado com os filhos.

Pais e mães responsáveis conhecem a doação constante... doa-se o tempo, doa-se o sono,  o colo, o afago, o material,  doa-se algumas escolhas, doa-se o ser. O cansaço aparece, o esforço aumenta, nossa fragilidade se revela, alguns sonhos são postergados ou adiados. E é bom que isso aconteça, pois se destina a um bem maior. O amor para ocorrer de forma efetiva, precisa nos desafiar a irmos além de nós mesmos, caso contrário não é amor verdadeiro, não há amadurecimento, não há superação de frustrações.  O verdadeiro amor é aquele que enfrenta e vence a dor, não é assim que Jesus nos ensina? Não é assim que a Mãe de Deus nos testemunha? Não foi assim que José deu seu sim?

O que se ganha com tanta dedicação? A redenção da família de fé. A plenitude da graça reconfortante, norteadora e generosa de nosso Deus. Deus não nos abandona, Ele nos capacita e fortalece. Nos apresenta os meios e os caminhos no tempo certo. Sua graça nos conduz para sermos pais cada vez melhores na medida em que nos doamos aos nossos filhos para que eles conheçam o Bem através de nós. Porém, atenção: doar-se aos filhos é também saber dar limites a eles. Não é dar tudo, não é ser “bonzinho”. É oferecer aquilo que ele necessita para crescer de forma íntegra, saudável, madura e responsável, à luz da fé cristã.

Rogamos para que a Sagrada Família, modelo de toda a família cristã, continue a interceder por nossas famílias. Que Maria nos ensine a sermos mães dignas de nossos filhos. Que José, grande pai cuidador, seja exemplo de fortaleza e serenidade aos pais. E que Jesus, Filho de Deus que elevou a família ao se encarnar e ao nascer em seu seio, seja o centro de nossas ações.

Fraterno abraço,
Patrícia E. de Lima Teixeira
* Artigo publicado no site http://www.alianca.fm.br/formacao no mês de abril/2014.